6 de janeiro de 2010

5 de janeiro de 2010

Poema para Iludir a Vida

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.

Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim  

e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

2 de janeiro de 2010

A Solidão Reinventada



Se a voz de uma mulher, contando histórias, tem o poder de pôr crianças neste mundo, é também verdade que uma criança tem o poder de dar vida às histórias. Diz-se que um homem enlouqueceria se não pudesse sonhar durante a noite. Do mesmo modo, se uma criança for impedida de entrar no imaginário, nunca aprenderá a enfrentar o real. A necessidade que a criança tem de histórias é tão fundamental como a sua necessidade de alimentos, e manifesta-se da mesma forma que a fome. Conta-me uma história, diz a criança. Conta-me uma história. Vá lá pai, conta-me uma história. O pai senta-se então e conta uma história ao filho. Ou então deita-se no escuro a seu lado, os dois na cama da criança, e começa a falar,  como se nada mais restasse no mundo além da sua voz, contando no escuro uma história ao filho. É muitas vezes um conto de fadas, ou uma história de aventuras. Mas muitas vezes não é mais que um puro salto no imaginário.


In A Solidão Reinventada, Paul Aster ( Bertrand Editora)
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