3 de janeiro de 2011

A esperança desesperada

Poucos serão indiferentes à situação em que o País se encontra. Mas que os há, há. 


São aqueles que, de uma forma ou de outra, contribuíram para esta tragédia. Não é preciso nomeá-los: todos nós sabemos quem são. E o que me parece mais desprezível é a firmeza com que ainda haja pessoas a defender um sistema não só doente económica e financeiramente mas, sobretudo, com graves enfermidades morais.

Chegamos ao fim de mais um ano e a esperança surge como desesperada. Já ninguém duvida das convulsões sociais que se adivinham, e só mesmo o primeiro-ministro é capaz de proferir afirmações tão absurdas como aquelas que faz. Ele o diz que é difícil decapitá-lo politicamente. É verdade. O homem possui uma tenacidade e uma obstinação invulgares. Não quer dizer nada. Apenas que está ali de pedra e cal. Até ver.

As sondagens dão-no como morto-vivo. E as coisas vão de mal a pior. Cavaco, que tem a simpatia dissimulada de quase toda Imprensa, o que se tornou na vergonha do pensamento crítico, tem demonstrado, nos debates televisivos, que não está à altura de coisa alguma. É um medíocre enfatuado, que mal oculta a raiva que o assola quando contrariado. E nada sabe de coisa alguma. Passos Coelho, inicialmente um falador sem continência, parece mais prudente e equilibrado. Aguarda, como um predador de tocaia, que a sua presa mais se estenda ao comprido. Depois, fará o que muito bem entender.

Vem aí o novo ano e todas as indicações são de molde a deixar-nos prostrados. O desejo improvável de Sá Carneiro - um Presidente, um Governo, uma Maioria - está quase a tornar-se realidade. A ausência de ideologia, a capitulação do PS de Sócrates, a desistência ética dos "intelectuais" portugueses permitiu esta anomalia histórica. Todos aqueles que, durante estes anos "socialistas" vão ser substituídos por uma trupe arfante de ganância e poder, já têm empregos garantidos em administrações de grandes empresas. Estou para ver para onde vai Sócrates. O despudor da "alternância" sem "alternativa" transformou a política portuguesa num modo de vida de um grupo que se protege e se resguarda. Não me canso de o dizer.

Estamos a perder a configuração moral de nação. Os que vêm nada trazem. Os que vão embora organizaram as suas vidinhas. Seria curial que o "jornalismo de investigação" procurasse indagar sobre o paradeiro profissional daqueles, do PS, do PSD e do CDS, que nos últimos trinta e quatro anos têm sido governantes. Mas o "jornalismo de investigação", que dá a ideia de possuir apenas um sentido e uma direcção, não está interessado em desvendar essas minudências.

Sócrates preparou o caminho, por inércia e atroz incompetência, para a Direita actuar de mãos livres. E o que a Direita tem dito, das suas opções, desígnios e objectivos só pode turvar as mentes de beócios. Mais: a Direita prepara-se para se instalar, durante muitos anos, na cadeira do poder. As consequências sociais e políticas do que se avizinha são imprevisíveis. O que não é imprevisível é a movimentação que já se nota, os conluios que estão a estabelecer-se, as intrigas que se urdem. O tal "jornalismo de investigação" talvez devesse noticiar os almoços, os jantares, os encontros, que tornam supérfluos, ou quase, os protestos de indignação dos que ainda se não dobraram. Ainda os há. Mas perdem, lentamente, essa capacidade.

Dilecto: como sou de têmpera rija e optimista, aceite um abraço forte e, apesar de tudo, de força e de resistência.

Baptista Bastos, in Jornal de Negócios

31 de dezembro de 2010

OS VENCIDOS DA VIDA

  

     O Exmo. Sr. Doutor Mário Soares, disse à dias numa entrevista à Revista Visão que:

-" Irritam-me os portugueses que se comprazem em dizer mal de Portugal. Esta moda, snobe, vem desde os Vencidos da Vida, uma tertúlia chique, criada em finais do século XIX".

        Uma observação desta natureza só podia ser orquestrada por Sua Exa. o Ex/Presidente da República   ( por acaso do PS), Ex/Primeiro-Ministro (por acaso do PS), Ex/Deputado Europeu (por acaso do PS), Presidente da Fundação Mário Soares (gostava de saber para que é que serve a Fundação). Esta 'Máxima' relembramos aos menos atentos, foi, dizia eu, orquestrada por acaso (???) durante um Governo (???) PS.

Permita-me Sr. Doutor, mas o Senhor está a fazer confusão entre o olho do cu (ânus) e a Feira de Beja.
São pouquíssimos os Portugueses (não conheço algum e conheço muita gente) que se comprazem a dizer mal de Portugal, regra geral (daí talvez a sua confusão) dizem mal, muito mal, dos tiranos que tem administrado a Nação, em especial nos últimos trinta anos ( onde V. Exa. se inclui). 'Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado'  e não é, nunca foi, nem há-de ser com Dantas como o Sr. e os seus 'camaradas'. Os factos atestam o que escrevo e como se não bastasse até alguns dos seus 'amigos' vieram lembrar-nos as 'Nódoas' que proliferam no 'Pano Luso':
-"A Justiça é a mais lamentável nódoa da Sociedade Portuguesa", António Barreto (por acaso foi ou é do PS) in, Diário de Notícias 29.12.2210; é a mais, diz aquele sociólogo, subentende-se mais nódoas. Claro que serão poucos a dar crédito àquilo que V. Exa. de vez em quando se lembra de argumentar, até porque todos (ou quase todos) reconhecem o Sr. como um "Grande Artista" a começar pela sua casa. Sua Digníssima esposa numa entrevista ao Jornal de Negócios disse:
- " Qual é o Presidente da República que não é actor? Todos os políticos têm de representar", Maria Barroso, antiga primeira-dama in Jornal de Negócios.
  Quem tem telhados de vidro, não devia atirar pedras aos telhados dos outros.
  Quando será que o Sr. Doutor segue o exemplo de um outro seu 'Grande Amigo' e nos deixa em paz?

28 de dezembro de 2010

Em que país eles vivem?

 À minha volta vejo vidas adiadas e carreiras desmoronadas. Depois leio o que por aí se escreve sobre um povo que não sabe viver com o sacrifício e pergunto-me: em que país vivem os nossos colunistas? 

Em frente a mim, um amigo com uma longa carreira almoça. Percebo que não o faz há dias. Demasiado novo para se reformar, demasiado velho para começar de novo, vive no limiar da sobrevivência. Mantém-se bem vestido para tratar das aparências. Tenta manter aquela dignidade que sempre me mereceu admiração.
No chat, converso com um amigo emigrado. Excelente no que faz, quando chegou a Lisboa parecia que a sua carreira não encontraria grandes entraves. Até que, cansado de viver de recibos verdes mal pagos em ateliers que tratam o talento como coisa irrelevante, decidiu partir. Sem nada que o esperasse no destino. Lá se está a safar. Mas, apesar disso, quer saber como isto vai porque ainda não perdeu a esperança de voltar.
Olho em volta e vejo os meus amigos mais promissores a dar aulas em universidades estrangeiras, com condições que aqui seriam virtualmente impossíveis. Outros a trabalhar em call-centers ou a viver de biscates, com as suas vidas adiadas para sempre. Vejo os pais deles a carregarem até à velhice o fardo de garantirem a sua sobrevivência. E a dos netos, quando os filhos tiveram coragem para tanto.
Diariamente cruzo-me com a angústia de vidas impossíveis, onde tudo é contado. De trabalhadores menos qualificados aos melhores quadros que o nosso sistema de ensino produziu. Tanto desperdício de talento que perco a esperança neste país.
Isto é o que vejo. Depois leio textos de colunistas e economistas. Vivemos acima das nossas possibilidades. Habituámos-nos ao bem bom. Perdemos a ética do trabalho. Já não sabemos o que é o sacrifício. Fico agoniado e assalta-me uma dúvida: sou eu que conheço demasiados azarados ou esta gente que escreve nos jornais e fala na televisão vive num País diferente do meu? 

Por Daniel Oliveira in Expresso On-Line 

27 de dezembro de 2010

Natal de 1971 (e de agora), Jorge de Sena

Natal de quê? De quem?                                         
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?                                       
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?                       
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe                                                    
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...