28 de dezembro de 2010

Em que país eles vivem?

 À minha volta vejo vidas adiadas e carreiras desmoronadas. Depois leio o que por aí se escreve sobre um povo que não sabe viver com o sacrifício e pergunto-me: em que país vivem os nossos colunistas? 

Em frente a mim, um amigo com uma longa carreira almoça. Percebo que não o faz há dias. Demasiado novo para se reformar, demasiado velho para começar de novo, vive no limiar da sobrevivência. Mantém-se bem vestido para tratar das aparências. Tenta manter aquela dignidade que sempre me mereceu admiração.
No chat, converso com um amigo emigrado. Excelente no que faz, quando chegou a Lisboa parecia que a sua carreira não encontraria grandes entraves. Até que, cansado de viver de recibos verdes mal pagos em ateliers que tratam o talento como coisa irrelevante, decidiu partir. Sem nada que o esperasse no destino. Lá se está a safar. Mas, apesar disso, quer saber como isto vai porque ainda não perdeu a esperança de voltar.
Olho em volta e vejo os meus amigos mais promissores a dar aulas em universidades estrangeiras, com condições que aqui seriam virtualmente impossíveis. Outros a trabalhar em call-centers ou a viver de biscates, com as suas vidas adiadas para sempre. Vejo os pais deles a carregarem até à velhice o fardo de garantirem a sua sobrevivência. E a dos netos, quando os filhos tiveram coragem para tanto.
Diariamente cruzo-me com a angústia de vidas impossíveis, onde tudo é contado. De trabalhadores menos qualificados aos melhores quadros que o nosso sistema de ensino produziu. Tanto desperdício de talento que perco a esperança neste país.
Isto é o que vejo. Depois leio textos de colunistas e economistas. Vivemos acima das nossas possibilidades. Habituámos-nos ao bem bom. Perdemos a ética do trabalho. Já não sabemos o que é o sacrifício. Fico agoniado e assalta-me uma dúvida: sou eu que conheço demasiados azarados ou esta gente que escreve nos jornais e fala na televisão vive num País diferente do meu? 

Por Daniel Oliveira in Expresso On-Line 

27 de dezembro de 2010

Natal de 1971 (e de agora), Jorge de Sena

Natal de quê? De quem?                                         
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?                                       
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?                       
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe                                                    
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

18 de novembro de 2010

Goldman Sachs: um dos tentáculos do polvo.


Nos últimos anos um nome surge com frequência no sistema financeiro internacional: Goldman Sachs. Entre escândalos e corrupção este banco de investimento nunca teve tantos lucros e influência.



Bem-vindo ao submundo dos verdadeiros governantes mundiais.

Salários milionários.

Este ano o CEO da Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, vai receber um prémio anual de apenas 9 milhões de dólares. Digo apenas, porque em 2008 esse prémio tinha sido de 68 milhões. De qualquer maneira, ele não está propriamente na miséria, só em títulos da Goldman Sachs tem uma fortuna calculada em cerca de 500 milhões de dólares.

O senhor Blankfein dirige o mais prestigiado banco de investimento de Wall Street e é considerado o mais poderoso não só pela sua riqueza, mas também e sobretudo pela sua teia de influência no mundo do poder.

Em 2008, o mundo descobre que um banco, até aqui desconhecido do grande público, o Lehman Brothers, podia por em perigo a economia mundial. Abandonado pela banca central americana, a sua falência dia 14 de Setembro de 2008 desencadeia a maior crise financeira da história.

Com a falência da Lehman Brothers sobra um banco dominante neste sector: o Goldman Sachs. Esta instituição poderosíssima está em todas! Crise grega? Goldman. Queda do euro? Goldman. Recusa de regulação dos mercados financeiros? Goldman. Eliminação do Lehman Brothers? Goldman. Venda de 44% das acções da BP, três semanas antes da catástrofe. Goldman.


Os tentáculos do poder:

A sua rede de influência está presente nos principais sectores financeiros, económicos e políticos.
Vejamos:

- Henry Paulson, número dois da Goldman Sachs (GS), tornou-se secretário do tesouro americano de George Bush;
- Robert Rubin, foi o patrão da GS depois de ter sido secretário do tesouro de Bill Clinton;
- Donald Sutherland, antigo comissário europeu da concorrência, ex-presidente da Allied Irish Bank, do GATT (agora OMC), da BP, tornou-se presidente da Goldman Sachs Internacional;
- Mario Draghi, governador da banca italiana tornou vice presidente da GS Internacional;
- Mario Monti, ex-comissário da concorrência em Bruxelas, tornou-se conselheiro de negócios estrangeiros da GS;
- Otmar Issing, ex-director da Bundesbank, tornou-se conselheiro internacional da GS.


Goldman Sachs ao longo do tempo multiplicou as suas acções opacas e pouco éticas: tinha participações em empresas que aconselhavam a clientes como investimento, utiliza frequentemente a técnica bolsista de venda a descoberto, especula sobre as divisas, especula sobre as matérias primas,...




















Grécia: contribuição do GS num afundamento planeado.

O caso grego é paradigmático da actuação da GS ao ajudar este país a esconder a sua dívida para depois tirar benefícios do seu "investimento".
Entre 2001 e 2004, a Grécia vendia a sua dívida soberana no mercado emitindo obrigações em euros ou outra moeda aconselhada pela GS. Em 2009 perante uma dívida cada vez maior, aconselhada por Gary Cohn, o número dois da GS, a Grécia vai ser "ajudada" a sair da crise.

No fim de 2009, numa operação concertada, a agência de notação Fitch baixa o rating da Grécia. Pouco depois, no dia 27 de Janeiro de 2010, a Goldman Sachs faz correr o a informação falsa de que a China tinha recusado comprar 25 mil milhões de euros de emissão de dívida à Grécia. Apesar do desmentido grego oficial, foi o suficiente para aumentar a taxa de juro do dinheiro pedido. Goldman Sachs tinha um interesse particular nesta operação: ganhar mais-valias.

Pouco depois, a Grécia, pressionada pela União Europeia teve de substituir o seu responsável pela dívida pública Spyros Papanicolau por Petros Christodoulou. O que se esquecem de dizer é que, antes deste posto, Petros Christodoulou trabalhava para ... a Goldman Sachs.






Este excelente livro de Marc Roche (apenas em francês), revela um pouco deste banco ultrasecreto, um dos mais poderosos do mundo, infiltrado em todos os negócios fianceiros, de grande promiscuidade com a classe politica e interlocultor priviligiado das grandes organizações internacioanis e do FMI.









Publicado por Octopus:  http://octopedia.blogspot.com/

14 de agosto de 2010

Uns dormem, outros não!

Estudo publicado na «Current Biology»


Já há quem diga que uma boa noite de sono é meio sustento. Mas, como conseguem algumas pessoas adormecer em qualquer circunstância ou local, enquanto outras se mantêm acordadas ou estremecem se ouvirem um barulho durante a noite? Um estudo publicado na edição deste mês da «Current Biology», na publicação Cell Press, explica como se apresentam diferentes padrões de ritmos cerebrais espontâneos.
“Ao medir as ondas cerebrais durante o sono, podemos aprender muito sobre o quanto o cérebro de determinada pessoa pode bloquear os efeitos negativos dos sons; quanto mais rotações ou eixos do sono o cérebro produz, mais provável será manter-se adormecido, mesmo quando confrontado com ruído”, assinalou Jeffrey Ellenbogen, da Harvard Medical School (EUA).

Durante o sono, as ondas cerebrais tornam-se lentas e organizadas, continuou Ellenbogen. As ligações do sono referem-se a rápidas pequenas explosões de ondas de frequência. Estas explosões de actividade são gerados por uma parte do cérebro chamada tálamo, que funciona como uma via para a maioria dos tipos de informação sensorial (excepto o olfacto).

"O tálamo é capaz de impedir a informação sensorial de chegar a áreas do cérebro que se apercebem e reagem ao som," disse Ellenbogen. “O estudo fornece evidências de que o eixo do sono é um marcador de bloqueio. Quanto mais ligações houverem, mais estável será o sono”.

O investigador e os seus colegas foram surpreendidos pela magnitude do efeito das ondas cerebrais durante o sono. Observaram padrões cerebrais quando analisavam um grupo de participantes, durante três noites em laboratório, enquanto dormiam.

Na primeira noite, não houve barulho, já a segunda e terceira foram bastante ruidosas porque os cientistas provocaram uma série de sons, tais como, telefones a tocar, conversa de pessoas, sons mecânicos, entre outros. “O efeito das ondas cerebrais do sono foi tão acentuado que se conseguiu perceber após a primeira noite”, disse. Os investigadores esperam encontrar formas de melhorar os ‘fusos’ do sono, através de técnicas comportamentais, fármacos ou aparelhos, mas ainda não têm claro como fazê-lo.

Solução de base cerebral


Ellenbogen avançou que estes avanços são especialmente bem-vindos, nos dias que correm, já que os ambientes onde dormimos são cada vez mais complexos e problemáticos, com sinais sonoros e pelo facto de vivermos 24horas e sete dias cheios de azáfama, a que nos sujeita a vida moderna. “O objectivo é encontrar uma solução de base cerebral que integre o sono de determinada pessoa dentro do seu ambiente moderno, tal como conseguir mantê-lo perante diferentes ruídos”, acrescenta.

O investigador vislumbra agora um futuro com acesso a múltiplas estratégias, com base na ciência do sono profundo e tecnologias, para ajudar a manter-nos adormecidos quando queremos dormir e despertar quando é hora de levantar. Entretanto, pode-se sempre afixar um cartaz na porta, que diga: “Silêncio!”

Um dos conselhos deixados por Ellenbogen, para quem precisa de adormecer com a televisão ou rádio ligados, é sintonizar o ‘timer’ para que se desliguem instantaneamente. “O barulho interrompe o sono e desequilibra-o, mesmo sem que nos apercebamos”, conclui.
in,CiênciaHoje
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